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Escrito por Paulinha às 20h18
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where d'you go I miss you so seems like it's been forever since you've been gone please come back home

"sono sem sonho" - Abigail Vasthi Schelemm
Escrito por Paulinha às 05h49
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oi tia ... deveria estar te escrevendo após o almoço, naquele momento-herança da siesta, encalcado mesmo nos não-praticantes, ao som de uma tv distante que entoa diálogos babélicos semi-inaudíveis, incompreensíveis ... deveria te escrever no meio da tarde, ao resmungo grave dos motores das peruas da feira, dos batuques ocos das caixas de madeira empilhadas à sorte no canto, formando esculturas mutantes ... ou te escrever no início da noite, no assobio da brisa anil que incita as árvores a castanholarem, ritmando o berro agudo da cigarra que entra pela fresta, oras canto, oras vento ... mas te escrevo agora, como sempre, regurgitando pensamentos embaralhados, nesse abismo entre a escuridão profunda e a quase-luz, onde um maestro louco rege pássaros por uma orquestra histérica. há dias que não durmo tia. mesmo dormindo por horas infinitas. você dorme bem aí ? tem pássaros que cantam canções apropriadas, para cada hora ? tem horas aí ? ou os dias passam lânguidos, preenchidos por rotinas surdas, onde todos sabem o que fazer sem nunca ter sido pedido, onde cada ato complementa o anterior e prepara o próximo, numa eficiência cordial e plenitude gratificante ? o que você faz por aí tia ? acredito que tenha um papel importante .. não teria ido embora daqui por menos. tava lá procurando o sono em meio a pensamentos que não são. que não são verdade, que não são prováveis, que não são saudáveis, que nao são abandonados. a cada busca eles tomam nova forma, mas o conteúdo permanece tia. e como o sono se esquiva e se esconde com maestria, eu só encontro esses mesmos fantasmas pelo caminho, que não fazem questão de se esconder. que me assombram pra me manter alerta. eles se disfarçam bem tia. acho que não existem disfarces aí. eles têm voz doce, que sussurra aquilo-que-se-quer-ouvir, contam histórias, fazem cafuné, e te servem manjares que lambuzam os dedos e amargam a boca. você tá se alimentando ? tava tão magrinha quando saiu daqui. acho que a comida aí deve ser dos deuses. eu ando comendo assim-assim. ultimamente minha cabeça tem ocupado o restante dos meus órgãos e lhes diz não-cabe-mais-nada-aqui. nada no estômago, nada no coração ... abre exceção pra garganta, onde cabe um nó. e só. ah, não quero te preocupar viu tia. é que seria bem bom te ouvir dizer coisas que me distraíssem, que me confortassem mais do que esses sonhos-acordada, essas palavras que meu cérebro faz ecoar pelo meu corpo vazio. você tem planos de quando volta ? seria bom se você tivesse férias. um tempinho. você já instalou telefone ? quando puder avisa .. pode ligar, a hora que for. eu não vou estar dormindo mesmo.
bom dia. minha tia-quase-mãe.
Escrito por Paulinha às 05h46
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tia ... a questão hj é essa .. e impossibilitadamente mais nenhuma.
acende uma velinha pro meu cérebro ?
um beijo .. minha tia-quase-mãe
vê se me liga ..
Escrito por Paulinha às 03h07
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Escrito por Paulinha às 07h16
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Oi tia. Então faz pouco tempo que te escrevi né ... é que você viu .. você viu ? .. essa noite não consegui dormir. Não sabia o que tava sobreaquecido, se era o quarto ou meu cérebro. Só revirei a roupa de cama - mais, do que já estava. Seria um comentário típico seu. E da minha mãe também. Aliás vocês tinham comentários típicos bem semelhantes. E a voz no telefone também. Mas acho que isso aí da voz veio com a convivência constante desses dois anos. Dois anos. Falando assim parece nada, mas vixe tia deu pra viver uma vida inteira né. Nesses dois anos. Daí, enquanto jogando o edredon oras-fora-da-cama-oras-em-cima-de-mim, rodopiei por uns dois anos nos arquivos da minha memória e dos em-branco do meu futuro. Esses eu pinto tia, toda noite e o dia inteiro. Ai, fico rabiscando, jogo cores, plugo uma trilha sonora, tia por vezes breguésima, aí seguro assim, mais ou menos longe, pra ver se ficou bom. Você viu, daí, o que eu desenhei essa noite ? Tinha você, na minha formatura, só que eu era pequena, e você valsava comigo eu-nos-ombros. e eu subia no altar, mais tarde, com aquele vestido .. tia AQUELE vestido, você me viu provando ? .. e com flores no cabelo. Tia não decidi se o buquê seria de tulipas brancas, ou aquelas florzinhas lindas mas subapreciadas, usadas como meras damas de companhia, atualmente, pras rosas. Pras rosas vermelhas. Acho uma exploração. O que você acha ? Não da exploração, isso é meu .. mas das flores ? quais seriam ? Você tava lá, também, sentada de azul. Tia aproveito pra pedir desculpas, falando em azul, pela roupa que você usou, no dia em que nos despedimos. Eu preciso falar, tia, que, na dúvida, mostre o colo. Afinal, não sabiamos como ia ser né, quando você chegasse aí. qual o protocolo etc e tal. E como eu queria que você tivesse usado azul. e você também, eu sei. Teria chegado mais estonteante .. isso sempre dá uma confiança. mas fiquei feliz de você usar o lenço que eu te dei. você tá com ele aí, tia ? ainda usa de vez em quando ? Seu cabelo deve estar lindo agora ... Então tia, falando em altar, agora nos desenhos da vida-real, teremos casamento em breve, vc ficou sabendo ? Devem ter te contado, claro ! Tia a gente tá crescendo, essas partes de você que ficaram aqui. E ramificando em outras pessoas, em outras famílias .. logo logo você terá um sobrinho quem sabe ... e quem sabe você vem visitar ? Quem sabe antes até, quem sabe no casamento. Tia quem sabe dessas coisas ? Pra eu perguntar, quem sabe. É pr'a gente se preparar, arrumar as coisas, caso você venha ... quem sabe a vó até tira a-louça-boa. A gente faz um bolo, qual foi aquele que você gostou ? de nozes ? .. pra vó tirar a-espátula-queen-anne ... que é integrante da-baixela-boa também. E você podia trazer um pouco daquela beringela hein tia. Você ainda faz ? E o vô abre um vinho pra tomar nas-taças-boas, aquelas do casamento de alguém. acho que deles ! E voltando pro casamento, olha como a gente rodopia, acho que vai ser no sítio ! e ela vai estar linda mesmo, não vai ? ela é feita dessa fibra, que é nossa, que brilha em todo mundo. todo mundo fica um pouco mais bonito quando ela passa. um pouco mais feliz. um pouco mais um pouco. você se lembra de nós lá no dia em que você foi embora ? a gente não queria falar muito com você, que era pra você não se sentir muito obrigada a ficar, já que tinha mesmo que ir. a gente entendeu isso. e foi a gente se distrair. por um segundo ! você aproveitou e foi né. é só vimos a hora que você já estava longe. acho que você falou tchau, baixinho. acho que ouvi. a gente falou tchau, de mãos dadas, você ouviu ? queria entrar de mãos dadas com ela também. ah porque VOCÊ não entra ? seria lindo tia. você de azul. com o cabelo cheio de flores. e ela linda de branco. flores no chão. você promete que pensa ? ela ficaria tão feliz também. Ah e já que estamos felizes, outra fofoca ! Mas essa você deve ter sabido em primeira mão. essa sua filha .. fazendo as coisas naquela discrição só dela .. mas consegui arrancar dela a confissão de que tá namorando ! você já sabia ? ou ouviu quando ela me contou ? ainda não o vi, e você ? liguei lá na hora tia. conversamos e rimos, ela se fortalece dia a dia, me parece. é que você segue de perto, eu sei. te falo que fez um lindo trabalho tia. acho que não cheguei a te falar isso. poxa, por isso queria te ligar. tem coisas que têm que ser ouvidas. mas te conto por aqui. vou te contando. mas mais tarde, talvez. acho que todo o rodopio tá se fazendo sentir agora .. e vou acabar não te contando como tem que ser. você já tomou seu café ? vou fazer um pra mim agora. pra ver se eu tiro um cochilo. a gente podia combinar, de você vir tomar um café comigo, uma hora dessas. Dessa vez eu vou. Eu prometo. e eu não esqueci. minha tia-quase-mãe.
Escrito por Paulinha às 07h03
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And it's so hard to do and so easy to say. But sometimes - sometimes, you just have to walk away
We've tried the goodbye so many days. We walk in the same direction so that we could never stray. They say if you love somebody then you have got to set them free, but I would rather be locked to you than live in this pain and misery. They say time will make all this go away, but it's time that has taken my tomorrows and turned them into yesterdays. And once again that rising sun is droppin' on down And once again, you my friend, are nowhere to be found.
And it's so hard to do and so easy to say. But sometimes, sometimes you just have to walk away
Escrito por Paulinha às 01h06
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Oi tia ... Por essas alturas acredito que já haja internet por aí ... acho que o sistema wi-fi deve imperar, pela praticidade e tal. Sei que você começou a se familiarizar com isso tudo enquanto ainda morava aqui .. então agora mais que nunca você deve querer ficar antenada nos acontecimentos. Não sei o quanto de informação chega até vocês, esses termos de censura variam tanto afinal .. veja você que o google na china é controlado, acho que queriam até proibir ! Daí que com tanta pornografia, spams e outras besteiragens rolando solta nessas ondas, fico me perguntando se vocês têm acesso livre. É que tenho tanta coisa pra te contar .. você esqueceu de me deixar seu telefone quando foi embora .. fico fazendo anotações mentais, às vezes até falo em voz alta tia, de todas as coisas que você precisa saber ... mas aí, sabe como é, ninguém te encontra, você também não telefona, os dias passam, a gente vai fazendo uma coisa, outra coisa, até que as informações vão se perdendo por aí no vento. Fico pensando, será que o vento as leva até aí ? Poxa, seria incrível, mas não duvido não. Mas mesmo assim, devem chegar meio incompletas né tia ... Ai, você deve ficar morrendo de curiosidade ... ! Imagina se chega tudo menos o final ? Claro que as notícias por aqui nunca têm um final assim, propriamente dito. Você lembra como é sua família né tia ... aquela enrolação preguiçosa, pra uma história puxar a outra, os personagens vão se adicionando, dia-um dia-outro .. e ai, TODO MUNDO dá palpite ! Meu deus tia você lembra ... ? Você viu bem. E eu que nem participo tanto hein. Aí cada um vai crescendo e vai desabrochando .. mesmo os velhinhos, a vó e o vô, todo dia trazem uma nova .. mas cada vez mais vai desabrochando um no outro. Sabe tia, a gente deu as mãos quando você foi embora. Na verdade, já na sua despedida, você viu ? Fizemos aquela corrente, pra te levar até aí com segurança. todo mundo dando a mão. Você chegou direitinho ? Até esqueci de perguntar ! Já se instalou tia ? Ah espero que você tenha uma vista linda ... Se você ficar na pontinha do pé você enxerga aqui tia ? Você me vê se eu estender os braços ? Se eu colocar minha mão nos lábios assim e te mandar um beijo tia, você vê ? Vou fazer isso outra hora, na tentativa. Por que daqui é tanto prédio, que às vezes não consigo olhar muito longe. Espero que você não esteja muito longe. Mas tava te contando. O que mesmo ? É que é tanta coisa. Muito do mesmo ... mas a gente vai se metamorfoseando, sem nem dar por isso, e assim o tempo passa. Quando você se mudou, a gente teve que se ajustar. Você sabe, preencher o espaço de alguém, a cadeira vazia .. não é assim que alguém vai sentando ali de novo, não é assim que a gente vai ficando confortável de novo. Ainda mais que você deixou todas as suas coisas. Tia a gente deu algumas embora, como você pediu. Você tem certeza que não tá precisando ... é que você foi tão corrida, nem deu tempo de arrumar tudo né ? Ah tava vendo tia, aquelas fotos .. daquele dia, de sol .. a gente no quintal ... e aquele outro também .. de sol .. a gente na piscina. Quer dizer, eu-meia-pessoa só .. e você .. uma menina ! era sempre sol tia, nas nossa fotos. faz muito sol aí ? Queria saber, como é o tempo aí ... chove quando você está triste ? espero que faça sempre sol, assim sei que você está alegre. Então na foto você tá me dando banho .. naquela banheirinha rosa QUE A VÓ AINDA TEM ! Tia .. tá vendo como pouco muda por aqui ? Quando você voltar, vai encontrar tudo no lugar, você vai ver. Acho que a banheirinha ainda vai estar lá. Dá uma olhada, em baixo do armário do banheiro dá vó ... Aí tinha a gente na piscina da sua casa ... haha .. a mesma que um dia foi levada pro sítio .. e a gente tava nela também, em outra foto. E a grama na sua casa era tão verde .. e todo mundo só de calcinha de bikini ... eu pretinha .. e todo mundo branquelo. Lembra que eu ia SER LOIRA quando crescesse tia ? Já que todo o resto da familia tinha nascido loiro e ficado moreno .. eu, que NASCI morena, ia ficar LOIRA ! .. como eu queria ... e você dizia que sim. e eu acreditava tia. por que tudo o que voce falasse pra mim, eu confiaria. minha tia-quase-mãe. tava sol também naquelas fotos que você tirou, na viagem que fez antes de se mudar daqui. aquela com a vó o vô e minha mãe. ah deve ter sido boa aquela viagem. você fez boa viagem, agora ? conseguiu descansar ? até esqueci de perguntar ! era pra isso que queria que você tivesse deixado um telefone ... a minha favorita é uma que você tirou com o vô. vocês num abraço gostoso. a gente tem bastante amor né tia. ainda bem que a gente nasceu perto um do outro assim. foi muita sorte. outro dia abracei o vô assim desse jeito. e a vó também. ela tá cada dia mais baixinha. igual a mãe dela ficou. um dia vou te abraçar assim também tia. a gente se abraçou assim, no dia que você foi embora. se abraçou e foi andando com você, assim abraçados, pra você saber que a gente te segura. acho que já deve ser tarde aí também tia. não sei bem o fuso-horário .. mas não quero te manter acordada até muito tarde. Então a gente vai fazendo assim .. vou te contando .. as coisas que vão acontecendo aqui, mesmo as coisas que não vão acontecendo, ou que deixam de acontecer .. Vai passando por aqui, quando tiver um tempinho .. não sei se você anda muito ocupada. e, se der, me passa seu telefone ... minha tia-quase-mãe.
Escrito por Lila às 00h55
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